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O inimigo

A corporação está convocada. A ordem veio do sargento, do tenente, do major, do coronel, ou até mais de cima, dizem, então é colocar a farda e assumir a tarefa, o dever para com o povo paranaense. A missão é cercar um prédio público. O patrimônio público é importante, pensa o miliciano. Mas por que ele deve ser cercado? Não interessa, responde um superior hierárquico. A tarefa é clara: cercar o prédio. Fazer perguntas demais não soa bem, melhor obedecer. Com a tropa na rua, o clima é festivo, toda a corporação fazendo um grande cordão em torno de uma bonita construção. Quase desejou que estivessem todos de braços dados. Uma comunhão em defesa do bem público. E quem são aqueles que nos afrontam? O inimigo, claro. Os vagabundos, subversivos, insubmissos, aquele povo encostado que só sabe sugar. O que eles querem? Eles querem atacar, ora! Depredar, saquear! Parem de fazer perguntas, apenas impeçam o avanço das tropas inimigas. Os comunistas avançam. Gritam palavras de ordem. Não ente...

Marcos Peres, Borges e o Projudi

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A primeira vez que li sobre Marcos Peres foi na seção de notícias do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. A notícia não era sobre os feitos dos desembargadores, as estatísticas de produtividade dos juízes ou qualquer outro assunto de pauta jurídica, mas sobre o vitorioso do Prêmio SESC de Literatura no ano de 2013. Então veio a primeira surpresa: o escritor era um técnico judiciário. Sim, aquele cara que faz seu processo ir de um lado para o outro no sistema, das mãos do advogado para as do juiz, o famoso “bate-carimbo”. Ainda que eu estivesse me deparando, talvez, com um desses exemplares raros de burocratas escritores, mais proeminentes no nosso passado (um Lima Barreto, Graciliano Ramos etc), tal fato, na minha cabeça, só poderia se dar na capital do Estado, Curitiba, cidade que, a despeito de concentrar o maior número de pessoas mal humoradas por metro quadrado no país, teria tamanho e dinâmica suficientes para fazer grassar tamanha excentricidade (brinco com a surpresa porq...

Eu gosto mesmo é de pobre

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Algumas classes sociais separam Caco Antibes, aquele do “Sai de Baixo”, do Ruço, de “Pé na Cova”, ambos programas televisivos de humor. De comum, no entanto, está o mesmo homem na pele dos dois, Miguel Falabella. Que não cogitem aqui que vou me alongar em discussões sociológicas a respeito da sociedade carioca, mesmo porque dela nada sei, dada a sua complexidade, mas o espaço é suficiente para uma constatação básica: eu gosto mesmo é de pobre. É, isso mesmo, pobre, pé-rapado, zé-ruela, necessitado, carente. Aquele terço da nossa população que habita em sua maioria a periferia das manchas disformes que convencionamos chamar de cidades e cuja mente e modos são também habitados pela periferia. A origem dessa predileção surgiu sabe-se lá aonde. Não posso dizer aqui que já fui hostilizado pelas classes mais abastadas ou me traumatizei com os nobres. Nada disso, eles me recebem de braços abertos, posso assegurar, mas alguns olhares de desconfiança, cônscios da minha verve média. Mas não...

Tu és Deus

Leio com a surpresa de um leitor de ficção científica a notícia dos cem mil inscritos como voluntários para colonizar Marte. Uma viagem sem volta. São muitos os que querem se livrar da Terra, deixando tudo para trás a fim de entrar de vez para a História interplanetária. A notícia me faz lembrar de outra equipe selecionada para visitar Marte. A nave Envoy partiu do planetinha azul direto ao vermelho carregando quatro casais, todos especialistas em algo. Depois de interrompida a comunicação com a base terrestre, outra nave foi enviada para averiguar o que ocorrera. A nova tripulação não encontrou nenhum sobrevivente da Envoy , exceto um rapaz: filho de um dos casais, Valentine Michael Smith. Estou a falar de " Um estranho numa terra estranha ”, de Robert Heinlein. Smith foi trazido à Terra como um tesouro, um objeto a ser dissecado pelo cientistas terráqueos. Criado por marcianos, estava deslocado de toda a lógica e de todas as idiossincrasias humanas. Por isso mesmo, com sua pe...

Strogonoff

“As risadas vão surgindo do pequeno grupo, um amontado de couro e tecido verde que se prosta perante uma chama fraca em meio à vastidão branca, de gelo, e negra, de terra revirada e revolta, da trincheira que chamavam de lar . Era uma distração de boa índole, porque o Oficial, que por sorte era destacado à cozinha, viera a ali se perder e a se isolar com o pequeno grupo da cavalaria, bloqueados pelo avanço dos poloneses e pela densa tempestade que os atingira duas semanas atrás. Os cavalos foram minguando, seja pela fraqueza, pelo frio, ou, o que mais irritava o Oficial, pela sua lâmina, que agora se dispunha a pelar o animal, atrás de sua carne negra e gelada. Era gostoso ouvir o som entrecortado dos risos curtos, mas longos o suficiente para quebrantar o frio”. Eu cortava a cebola, as mãos salpicadas de pedacinhos do fruto e os olhos de lágrimas, quando ele me abraçou por trás, beijando minha nuca e apertando meu seio esquerdo. Um tremor de repulsa percorre minha espinha e ele confu...

Gatos

Um homem feliz é um homem que se dá conta de todos os processos de sua vida. Ele sabe porque o sol nasce, o despertador toca, o porquê do barulho do motor do barbeador. Ele entende quando o ônibus sacoleja e o motivo dos olhares se cruzarem. Ele entende a fúria do chefe, a indiferença dos “um qualquer aí” e a medida exata entre a água gelada e a natural dentro do copinho de plástico. Ele compreende o cansaço e o suor e conhece a pontinha de esperança que o invade toda vez que a lua cerra o tempo pretérito. E ele faz tudo isso sorrindo. Eis o homem feliz. E não obstante esse homem feliz se encontre com seus vizinhos e exclame bom-dia-boa-tarde-boa-noite com a expressividade de uma criança de quatro anos, por mais que ele supere os gracejos inconvenientes e as tristezas que martelam covardemente seu ímpeto, ainda assim, mais hora menos hora, ele cede. Mas antes de ceder, ele só não entende uma coisa: por que tantos gatos mortos? É coisa que ele reparou por acaso. Em uma calçada florid...

A arte da briga

Fui encontrá-lo no terraço do nosso prédio, olhando para baixo, para os carros e pessoas que se movimentavam incessantemente. Sabia que o encontraria ali, em seu refúgio, onde ninguém mais pensaria em procurá-lo, exceto eu. Aproximei-me e me recostei na parede, deslizando até o chão, onde sentei sem maiores preocupações. Percebendo minha presença, ele não esboçou reação alguma, limitando-se a me imitar, até estar sentado como eu. Estávamos de costas para o mundo. Acendi um cigarro e ofereci a ele. “Não conta para sua mãe”, recomendei. Ele me olhou com aqueles grandes olhos expressivos e curiosos, como fazia desde os dois anos de idade. Em cada olho também estavam marcados hematomas do tamanho de bolas de tênis. Seu lábio, inchado na parte inferior, junto do roxo escuro dos olhos, fazia-o parecer uma fruta desfigurada. Pegou desajeitadamente o cigarro da minha mão e o tragou. Tossiu, o que me alegrou. “Devia ter imaginado que era o seu primeiro”. “Mamãe não aceitaria”. “E essas m...