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Mostrando postagens de abril, 2012

À meia-luz

À meia-luz o mundo inteiro é mais bonito. As ruas, as árvores, as casas, o banco da praça, todos parecem saídos de um sonho distante, impossível de se recordar onde e quando começou. O que dizer do seu corpo, então? As formas realçadas, esse jogo milenar entre luz e sombra que divide nossa ignorância do nosso esclarecimento. Você está de costas para mim e de frente para o seu querido espelho, nua, provando os meus diferentes tipos de chapéu, na penumbra de um quarto que se vê livre da completa escuridão apenas pela luz de um velho abajur. Entre uma pose e outra você me pergunta se ficou bem. É a mesma indagação com o panamá, com o cowboy, com o de palha, o boné militar, a boina. Enquanto respondo, sinto que o mundo é uma eterna repetição para que eu diga sempre em voz alta como idolatro cada curva do seu corpo,  a única coisa realmente digna de nota a se observar sob os meus chapéus. Se fôssemos cachorros de rua, nossa história começaria com um encontro fortuito num beco qualquer...

Memórias de um mercador de lágrimas masculinas

Fiquei observando a cena de longe. Os ombros do rapaz arqueavam tanto quanto suas sobrancelhas. Estava quase ajoelhado, gesticulava muito e sua voz era de uma entonação infantil, daquele tipo de criança que insiste querer um doce negado. Bem tentei ficar comovido. Não consegui, claro, cena patética. A garota, por sua vez, estava ereta, dona da situação, os braços cruzados, ditando e bradando. Ele suplicava, ela negava. Para ser bem sincero, eu torcia pela garota. Quanto mais ela o magoasse, mais jogasse sobre seus ombros o peso de todas as decepções que ele causara a ela, bem, essa é minha profissão, eu dependia disso, ela precisava causar o maior estrago possível. E convenhamos, ela estava fazendo um ótimo serviço. Geralmente não me importo com o motivo da discussão. Aliás, não precisa nem ser uma briga de casal, mas esses geralmente surtem mais efeitos. Tentei distinguir as palavras de longe, ele falava sobre mudar, sobre respeitá-la, sobre uma nova chance, ela repetia o nome de out...

A visita dos lixeiros

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Quando se é um pequeno rapaz de cinco anos, você se sente um príncipe de um reino imenso chamado lar. Você tem seu próprio quarto, afinal, suas irmãs são adolescentes e garotas e você, o único principezinho homem da casa. Você é o queridinho da mamãe e o orgulho do pai. A empregada vive para mimá-lo. Nenhum brinquedo no mundo é demais, nenhum carinho basta, nenhuma brincadeira cansa. Ser um pequeno príncipe é a melhor coisa do mundo. Ou pelo menos eu pensava assim nessa tenra idade. Não é necessário fazer muita coisa para manter seus súditos felizes. Você deve ser bonitinho, ingênuo, sorrir bastante, ficar bravinho e mostrar uma inteligência maior que a das outras crianças que… bem, não são tão príncipes assim. O começo das noites eram sempre um momento especial. A minha irmã descia para namorar e eu aproveitava para passear, olhar o meu reino. É claro que os beijos dela com o namorado me irritavam, já que eu não entendia nada daquela linguarada e, para ser bem sincero, achava bem...