À meia-luz
À meia-luz o mundo inteiro é mais bonito. As ruas, as árvores, as casas, o banco da praça, todos parecem saídos de um sonho distante, impossível de se recordar onde e quando começou. O que dizer do seu corpo, então? As formas realçadas, esse jogo milenar entre luz e sombra que divide nossa ignorância do nosso esclarecimento. Você está de costas para mim e de frente para o seu querido espelho, nua, provando os meus diferentes tipos de chapéu, na penumbra de um quarto que se vê livre da completa escuridão apenas pela luz de um velho abajur. Entre uma pose e outra você me pergunta se ficou bem. É a mesma indagação com o panamá, com o cowboy, com o de palha, o boné militar, a boina. Enquanto respondo, sinto que o mundo é uma eterna repetição para que eu diga sempre em voz alta como idolatro cada curva do seu corpo, a única coisa realmente digna de nota a se observar sob os meus chapéus. Se fôssemos cachorros de rua, nossa história começaria com um encontro fortuito num beco qualquer...