O cigarro da cobra
Salas de espera de hospital sempre me pareceram abatedouros. Todos se acomodam cordiais, calmos, consumindo revistas cheias de imagens chamativas, naquela devota expectativa de um nome a ser chamado, o momento em que todos olham para cima, à espera de Deus, digo, de um médico. Eu, contudo, só olhava para meus sapatos, meus puídos sapatos. Olhar para os pés não era uma tática muito recomendada na Itália. Provavelmente levaríamos dois balaços cada na cabeça, sem nem ao menos ter a dignidade de saber a origem do tiro de misericórdia. O sargento então não cansava de nos lembrar com sutis incentivos no queixo – um dia quase mordi a língua e então aquele filho-da-puta veria o que é insubordinação – a ficar com o olhar atento, a cabeça ereta. A bem da verdade, insubordinação era o que rondava meus miolos naquele momento. A ideia de sair em disparada, fugir da consulta, me parecia tentadora. O abatedouro era o de menos, pior era me encontrar com ele . Que tipo de perguntas faria?, não ajuda...