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Mostrando postagens de agosto, 2012

O concurseiro

Não seria de todo estranho se na tela da minha televisão aparecesse o rosto de uma mulher muito atlética. Mandona e rabugenta, ela me olharia com desdém, e me obrigaria a fazer exercícios matinais, tocando os dedos de meus pés, mesmo que o meu corpo todo, retorcido e cansado, me empurasse novamente para a cama. Eu não sei se alguém já escreveu isso, mas a cama parece o cemitério das almas atuais. Acho, sinceramente, que estamos morrendo antes de nossos corações pararem de bater, o que não deixa de ser uma eterna verdade. Mas antes a alma costumava ficar lá, intacta, e muitas vezes mais vigorosa, depois de uns bons anos de vida e de maturidade. Não é o que observo agora. É bem provável que o Prozac tenha dado início à extinção coletiva da alma. Nada posso dizer sobre a veracidade da morte das almas, porém, a cena da mulher atlética é verdadeira, e costumava assombrar um sujeito de nome Winston Smith, aquele mesmo que é pisoteado pelas botas do totalitarismo criado por Orwell em “1984”....

La petit mort

Nossa vida cotidiana se caracteriza pela nostalgia do estilo, por sua ausência e pela procura obstinada que dele empreendemos. Ela não tem estilo e, apesar dos esforços para se servir dos estilos antigos ou de instalar nos restos, ruínas e lembranças desses estilos, fracassa na tentativa de criar um estilo próprio. (Henri Lefebvre, “A vida cotidiana no mundo moderno”). Por um movimento involuntário qualquer, depois de se satisfazerem com um sexo rápido e sem charme, ele ligou a televisão, mais para que a cabeça não criasse ideias que para qualquer outro fim instrutivo. Ela, alheia à decisão, não reparou na conjuntura que o levara a apertar o botão do controle remoto e, ainda de pernas moles e levemente trêmulas, passou a ouvir a notícia de fundo. Falava-se em uma chacina, com uma dezena ou duas de mortos, os corpos inescrupulosamente exibidos na tela, o sangue já escuro no asfalto, helicópteros panoramizando as melhores visões da tragédia. - O que vamos comer?, ela perguntou, sent...