O concurseiro
Não seria de todo estranho se na tela da minha televisão aparecesse o rosto de uma mulher muito atlética. Mandona e rabugenta, ela me olharia com desdém, e me obrigaria a fazer exercícios matinais, tocando os dedos de meus pés, mesmo que o meu corpo todo, retorcido e cansado, me empurasse novamente para a cama. Eu não sei se alguém já escreveu isso, mas a cama parece o cemitério das almas atuais. Acho, sinceramente, que estamos morrendo antes de nossos corações pararem de bater, o que não deixa de ser uma eterna verdade. Mas antes a alma costumava ficar lá, intacta, e muitas vezes mais vigorosa, depois de uns bons anos de vida e de maturidade. Não é o que observo agora. É bem provável que o Prozac tenha dado início à extinção coletiva da alma. Nada posso dizer sobre a veracidade da morte das almas, porém, a cena da mulher atlética é verdadeira, e costumava assombrar um sujeito de nome Winston Smith, aquele mesmo que é pisoteado pelas botas do totalitarismo criado por Orwell em “1984”....