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Mostrando postagens de junho, 2011

Terno e gravata

Ela se espreguiçava enrolada na coberta, lânguida, o corpo eletrificado, deixando ir embora aquele resquício de gozo, uma sobra do prazer. Abrindo os olhos, podia ver a silhueta dele no banheiro, suas pernas magras, suas coxas entalhadas, sua bunda enviesada, as costas largas que a agradaram tanto. Nada fazia, não se lavava, não escovava os dentes, não se admirava, apenas encarava o próprio reflexo no espelho, profundamente. “O que você está fazendo aí que não vem me abraçar?”, perguntou ela, o mais docemente que lhe foi cabível. “Apenas lembrando de algumas coisas”, vago. “De outras?”, ela provocou. Ele tornou a cabeça, os olhos divertidos. Um sorriso fora de lugar a confundia, fazendo-a pensar se achava graça, se confirmava o que havia dito, ou se a tomava por ridícula. “Maldição”, ela chegou a pensar, “que porra de homem é esse que nunca deixa claro o que pensa?”. Os pensamentos dela foram mutilados pela voz cavernosa dele. “Eu lembrava de um tempo em que eu jamais estaria aqu...

Dedos

Certas coisas nunca dizemos em matéria de amor. Nunca foi necessário à minha esposa, por exemplo, que anunciasse a mim solenemente sua vontade de defecar. São coisas que deixamos tangenciar o lindo mundo do romântico, sem necessidade de verbalizar. Mas não se ajeitem em sua aflição. Não falarei de fezes e outros fluídos que importunam a relação amorosa dos casais que desaprenderam a compreender seus corpos. Não. Nem sempre se precisa ser um Rubem Fonseca ou um Bukowski para entreter as mentes incautas. Não obstante, hoje falarei de dedos. Tudo bem, talvez eu fale de fluídos, mas prometo não falar de fezes. De dedos falarei. Minha esposa era uma mulher tranquila. Sempre fui afobado, ao contrário. Ela queria me mostrar um lado maravilhoso da vida, falar da infância, de seus pais, de suas experiências (obviamente não-sexuais). Estrelas, sol, lua, paisagens. Minha esposa era uma transcendental. Eu, por minha apressada vez, queria transar. Assim, sem muita cerimônia, apenas o bom e velho ...

O peixe

Pode parecer um tanto quanto intragável que um peixe estivesse nadando ao meu redor, em meio à composição de gases que nos cercam, batendo lepidamente suas nadadeiras no nada, apenas me rondando, traçando movimentos aleatórios. Certamente ele deveria estar na água, como todos os outros peixes que já conheci, exceto aqueles que degustei. No entanto, sem muita cerimônia, esse peixe em especial não estava na água e, por mais estranho que pareça, suas guelras filtravam só e tão-somente o oxigênio de que tanto necessitamos. Não era comum que o peixe me circundasse. Suas aparições eram pontuais, porém inequívocas. Era mais uma espécie de peixe-aviso. Se algo me colocasse em perigo, lá estava ele, a me olhar com olhos vidrados e preocupados, e a abrir e fechar sua pequena boca de peixe, como se desejasse gritar, “corra, corra!", coisa que falhava em conseguir, por mais que tentasse. Seria por demais bizarro afirmar que um peixe que nada no ar também possa gritar: a Natureza jamais seria...

Homens olhando umbigos, mulheres olhando infinitos

Carência. Sou piegas, então calha bem confessar que o dicionário me contou que carência significa “Falta, ausência, privação, necessidade, precisão”. Uma sensação ou um sentimento? Não sei. Tanto faz. Carência é algo que é pautado por um sentido negativo, de vazio, a necessidade de algo que inexiste. Certa feita eu indaguei uma menina sobre o motivo de ela ser tão fechada, tão propensa a afastar as pessoas de seu redor. Uma dessas pobres meninas que andam aos montes por este planeta e que são incapazes de reconhecer os próprios desejos, o que, convenientemente, é algo por demais estranho, pois até onde eu sei, reconhecer um desejo é tão fácil quanto achar o próprio umbigo, ou talvez seja fácil por isso mesmo. Posso cogitar que com mulheres se dá de maneira diferente? Devo. Mas isso é assunto para outros textos. A resposta foi intrigante: a aproximação se dá por momentos de carência, isso é passageiro e (aparentemente) errado. É fraqueza. A relação forte e duradoura é a amizade. Com ...