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Mostrando postagens de setembro, 2011

Trator

Você caminha sobre o que antes eram petit-pavés brancos e pretos, num desenho bem característico. Uns dizem ser histórico, outros não ligam tanto. Agora, caminha-se sobre um concreto cinza sem vida e pelo resto do lugar, a grande parte, vê-se nada mais que chão de terra batida, terraplanada, pronta para receber os pavers, aqueles que definitivamente evitam acidentes com mulheres vaidosas de salto alto. Tudo foi abaixo, não restou nada. É a ordem natural da força. Eu não ligo propriamente, mas ali havia algo que me era caro. Existia ali, no meio do calçadão em reforma, uma chopperia. Era um quiosque escondido entre o burburinho dos que passam-cá e passam-lá. Foi demolido há não muito tempo, talvez um ou dois anos. E talvez um ou dois anos antes eu me sentava ali, sozinho, na tarde quente, numa das mesas vazias e começava a olhar as pessoas que passavam. Era minha diversão secreta. Observar sem ser notado todas aquelas pessoas em seus passeios habituais. A tia gorda cheia de sacolas; ...

Vamos fingir que ela se chama Helena

A uma grande amiga. ____ Baby, I love you But if you wanna leave, take good care I hope you make a lot of nice friends out there But just remember there's a lot of bad and beware (Cat Stevens)   A porta do banheiro vacilou, fechando-se atrás de si. Tão logo se viu sozinha, suspirou, aliviada. Andou calmamente em direção à cuba da pia e apertou intranqüila o dispositivo da torneira. Foi com alegria que molhou o rosto. Estava tensa. Como lhe irritava gente fraca! Realmente não fora feita com o dom da tolerância, muito embora se visse como um pilar de sustentação. Pilar de uma família, de uma casa, de uma vida. Quando por fim se sentiu refrescada pela água, decidiu abrir seus olhos. O espelho, imenso, encarava-a. Não se sentiu bonita. Odiava tantos centímetros de seu corpo quantos lhe fossem possíveis odiar. Se bem que não raro, sentia-se bem com seus cabelos, quando não teimavam em lhe desobedecer, ou seus olhos. Sim, seus olhos eram seu trunfo. O exercício de se encarar no espel...

O platô

O cara mais para o lado de lá do balcão olha para mim com cara de perdedor durante uns dois minutos e diz: - Você sabia que o homem nunca mais atinge o nível de excitação que teve aos 18 anos? Eu não via nenhuma mulher por perto para conhecer, nenhum amigo para sacanear e, a bem da verdade, eu me sentia sozinho sem ter com quem trocar ideias despropositadas, ainda que minha cerveja estivesse esforçadamente tentando cumprir esse papel. - Não, eu não sabia. Que droga, hein, respondi desinteressado. - É uma coisa triste, rapaz, significa que estou há 17 anos em declínio. - Como todo grande império. - Não que eu tenha sido um, reconheceu o homem. - Talvez sejamos como o macho da viúva-negra, você sabe, meros alimentos depois da cópula. O homem riu lembrando-se de algo. - Me parece que é isso mesmo. Somos Deus por uns bons minutos, e depois alimento pra fêmea insaciável. - “Deus”, essa é uma visão interessante, já ouvi falar que Rasputin tentava chegar até Deus através de orgias, ...

As exiladas

Eu estava em um McDonald´s, com uma atendente espinhenta e de bunda farta me encarando. Ela articulava as palavras no mesmo tom pastoso e robótico para todos que se enfileivaram esperando fazer seu pedido e ao me olhar, eu podia dizer que ela estava olhando para todas as tarefas que ela teria de fazer mais tarde naquele dia, talvez fazer sua avó tomar os remédios, passar a roupa, lavar a geladeira, ninar uma criança?, sabe-se lá, mas ela não olhava justamente para mim . Ao meu redor, pessoas com cara de carneiro não disfarçavam a fome. As que mais me chamavam a atenção eram as mulheres de trinta ou quarenta anos. Você não sabe dizer hoje em dia quantos anos tem uma mulher e é por isso que elas chamavam a minha atenção. Eu diria sem má-fé que uma delas tinha 25, mas aquela perua já tinha uma filha de cinco anos (eu posso dizer a idade de uma criança) e olhando mais detidamente ela tinha todos os trejeitos de uma trintona. São mulheres para uso irrestrito. Elas engravidam e nunca perdem ...