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Mostrando postagens de novembro, 2011

Contos amorosos: o amor platônico

Júlia viera juntar-se a ele; juntos contemplavam, com um certo fascínio, a figura reforçada da prole. Fitando a mulher na sua atitude característica, os braços grossos alcançando o varal, as ancas muito salientes, fortes, como as de uma égua, ele achou, pela primeira vez, que ela era bonita. Antes, nunca lhe havia ocorrido que pudesse ser belo o corpo de uma mulher de cinqüenta anos, ampliado a monstruosas dimensões pelos partos sucessivos, depois enrijada, calejada pelo trabalho até ficar grosseira como um nabo muito maduro. Mas era, e afinal, pensou ele, por que não? O corpo sólido, sem contornos, como um bloco de granito, e a pele vermelha arrepiada, representavam o mesmo, em relação ao corpo de Júlia, que o fruto de uma rosa brava junto à rosa de jardim. Por que seria o fruto considerado inferior à flor? - Ela é bonita! - murmurou ele. (trecho de “1984”, George Orwell)   A minha ideia de “você” sempre foi superior à sua própria existência. A bem da verdade, acho que a image...

Quebra-cabeça e tudo o mais

Algumas lágrimas trilhavam o rosto de Lilian em fila indiana: vinham quentes e com emoção, coisa que as tornavam muito dignas da dona. - Como amo você, Matheus! E dizia isso com aquele brilho nos olhos que comove até banqueiro. Matheus não dizia muita coisa em troca. Não era lá o tipo de sujeito de se esperar fina ternura, porém, a doce Lilian não dava bola para isso - triste sina das mulheres que amam demais! amam tanto que amam por si e pelos outros. Que seja. Ela estava mais preocupada em enquadrar a sintonia que o corpo de Matheus, o insosso, pudesse lhe fornecer. Foi assim que ela se encantou com o suor das mãos dele, bem como com sua leve tremedeira. Para completar, essas mãos tremeliqüentas e molhadas estavam na mais mórbida frieza. Sem falar no ligeiro gaguejar das poucas palavras que este rapaz pronunciava! Era o Céu para a encantadora Lilian. Prometeu a si mesma que iria rezar cinco ave marias quando chegasse em casa em agradecimento a esse sublime momento. Não que estiv...

Contos amorosos: o amor desencantado

Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras.                                         (Ovídio)   Quando você vai embora após um beijo de despedida, eu tranco a porta da casa, volto para o meu quarto e encaro os lençois bagunçados sem muita preocupação. Revirando o chão encontro os seus fios de cabelo espalhados, são loiros, ruivos, pretos. Também o suor que impregna meu colchão tem cheiros distintos e ninguém pode me acusar de não ser asseado, pois troco a roupa de cama semanalmente, para evital a tal da rinite alérgica. São todos cheiros seus. Na penumbra, não vejo em você um rosto definido, e mesmo que acendesse a luz, tenho a impressão de que ele se evaporaria. À meia-luz, tudo ...

A casa das cinco mulheres

D. era uma senhora nos seus cinquenta e poucos anos. Não era bonita e nem se imaginava que algum dia tivesse sido. Tinha os cabelos mal-ajambrados e em tudo, das rugas às roupas, parecia que tinha estacionado na década de 60. Me olhava com olhares ora tristes, ora inquisitivos e até hoje não consigo decidir se dela sinto pena ou medo. D. era dona da pensão onde um dia morei por necessidade. Despedidas são sempre coisa triste. Eu saí do meu ninho com 18 anos de idade, a cabeleira recém-raspada, um idealistazinho arrogante e imaturo, deixando para trás uma cidade do interior paulista, quente e insossa. Fui despejado numa república em Londrina pela minha mãe e essa despedida por si só já seria suficientemente triste, não fosse o fato de que não foi a única despedida, e por certo não a despedida da qual falarei aqui. A despedida a que me refiro aconteceu no dia em que pela segunda vez minha mãe teve de partir e deixar o filho que criara com zelo. Eu era um errante, pulando de moradia em ...

Elegia

No dia 10 de Novembro de 2011 faleceu o meu avô Athayde de Araujo Teixeira, em virtude de um grave câncer que lhe tolheu as forças em menos de um ano. Com meu vô, partiram também inúmeras histórias cheias de detalhes minuciosos que ele habilmente guardava em sua memória. Eu gostaria de acreditar que o tal 11.11.11 não significou coisa alguma. Mas não bastando a coincidência da data, foi às 11:11 que o último tijolo foi acomodado no jazigo da família para selar seu túmulo, segundo um primo meu. Sob a pedra e o epitáfio também se encontra minha falecida avó, que já não está mais por aqui há 14 anos. Eu tinha 8 ou 9 anos quando ela morreu e aquela foi a primeira vez que lidei concreta e conscientemente com a morte. Na ocasião, não velei seu corpo. Não sei dizer o motivo. Na minha mente ora infantil eu a tinha mandado para um lugar confortável, um lugar que a livraria de todo o sofrimento que os constantes tratamentos infligiram a seu corpo. Vê-la talvez arruinasse tudo isso, talvez fizess...