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Mostrando postagens de dezembro, 2011

2011

A areia revolvida nas canelas, as flores brancas jazendo nas ondinhas, sob os pés dos mais festivos, oferendas desprezadas por Iemanjá e vítimas da maré, os pingos de chuva que dão vontade de lamber o céu. Num instante, um rapaz de sorriso lépido estende as mãos e deseja sem nenhum compromisso Feliz Ano Novo. Ele não me conhece. Tampouco os amigos dele, que fazem o mesmo ritual. Noutro ponto, uma voluptuosa garota se despe de seu vestido, instigada pelas amigas, a fim de cumprir alguma promessa, fica seminua, a pele lisa iluminada pela luz da Lua. Passo encarando seus seios e faço um gracejo, mas somente uma das amigas ri. Meu chinelo gruda na areia. As garrafas, seja de Sidra Cereser ou Dom Pérignon, se amontoam sob o trajeto. É preciso tomar cuidado com os cacos de vidro. Uns grupos cantam, pulam, outros se abraçam, a minha fila indiana caminha. No mar, os transatlânticos nos saúdam, vaidosos. Quando olho para trás, seja hoje ou naquele dia, percebo quão grande foi o caminho percorr...

Bom dia, devedor

“Garoto…”, ele disse num tom de desprezo, “…vê se aprende como se faz essa merda”, e deu com o pé de cabra no joelho do homem. Era um cara de uns quarenta anos, uma barba ainda rala, e cara de bicheiro, o que não tinha de pelo no rosto, tinha de sobra no peito. Ele gemeu alto, mas tentou aguentar como alguém que ainda tinha algum resquício de dignidade. Não durou muito, porque logo começou a chorar e a balbuciar uns troços incompreensíveis, “na-na-na, bu-bu-bu, eu pago, eu pago”, era o que dava para entender. É engraçado como a parte da aceitação conseguimos compreender perfeitamente, mas para todo o resto, e nisso incluo as desculpas sobre a família, a mulher, a amante, a vó, a mãe, as dívidas mais importantes, enfim, toda a enrolação, isso não escutamos não, e é claro que você pode presumir que as dívidas conosco são as mais urgentes. É porque somos muito bons em cobrar, e disso era testemunha o filho do cara, o quarentão que se contorcia na minha frente, um pivete de uns dez anos, q...

O padrinho Lancelote

Tinha essa taça de vinho tinto, muito brilhante, eu não sei se era coisa do luar ou da minha cabeça, mas ela brilhava soberbamente. O minuano refrescava minha nuca, meu cabelo cacheado sempre me fez suar mais do que gostaria, mas de qualquer maneira eu divagava a respeito da cor do vinho, coisa que tinha aprendido com uma garota, quando percebi que eu devia ser realmente muito introspectivo para ficar pensando em tais coisas, e sozinho, numa festa de casamento. Eu ali, na sacada, entre a lua e o vinho e as pessoas dançando despreocupadamente na pista, lá dentro. Posso estar errado, mas pouco tempo antes uma gordinha tinha passado por mim, rebolando dentro de um vestido apertado, eu a olhei de esguelha passando por mim, com seus tornozelos grossos. Era muito bonita de rosto e a essa altura eu já estava me perguntando se o fato de eu querer ir para a cama com ela era coisa do álcool ou um gosto novo muito democrático de alguém outrora esteta. Ela não me olhou nem nada e por mais que me...

Uma crônica de cinco anos

Se por uma brincadeira do destino ou por um tremendo avanço tecnológico eu pudesse, apenas hipoteticamente, voltar ao passado e me deparar com o garoto de 18 anos -  no caso, eu mesmo -  que pisou pela primeira vez em Londrina para cursar ingloriosamente Direito, eu não perderia tempo me aconselhando sobre as melhores matérias a estudar, sobre como conseguir as mais amáveis garotas ou sobre as festas mais infames, eu apenas daria alguns tapinhas em minhas costas e diria com tom superior, “meu amigo, você vai mudar pra caramba”. Escrever cinco anos num único texto curto e que faça jus a cada experiência vivida por mim nesse tempo de universidade é talvez uma tarefa impossível, por isso eu gostaria de focar nessa diferença dos olhares. Aquele rapaz de 18 anos chegou em Londrina tendo deixado para trás um namoro intenso, os melhores amigos e, obviamente, a família. Ele achou que ia se deparar com um local de debates e ideias e experiências das mais sórdidas. Bem, ele encontrou,...

Boina e Panamá

Dia desses estava sentado num banco de praça carcomido, encarando um cachorro de rua carente, quando um amigo meu, outro escritor, chegou ao meu lado e se sentou sem cerimônia. Ele estava com sua boina, e eu com meu panamá e uma barba de dez dias. “Você está um caco”, observou ele. “Obrigado pelo elogio, eu realmente me esforço”, respondi satírico. Tirei do bolso um maço de cigarro intacto e o entreguei ao meu amigo - “Feliz aniversário atrasado”, emendei, com um sorriso forçado. “Que ironia!”, riu-se o bastardo, abrindo o maço e fazendo questão de assoprar a fumaça na minha cara após acender o seu marlboro fedido. “É, é uma ironia, eu comemorando o seu nascimento e o matando um pouco mais”. “Eu adorei”. “Realmente não entendo como você consegue aproveitar essa vida de lixo e achar bonitas as coisas mais sujas desse mundo”, desabafei, enquanto espantava o cachorro com um pontapé na bunda. “Qual o problema agora? Mulheres de novo?”, indagou a mim, brincando com a fumaça no ar. ...