O tombo da senhora
Percebi que o mundo estava girando rápido demais quando dia desses andava por uma feira popular com a velocidade e a paciência de um executivo paulistano. Não dei bola para os tomates, as violetas, o queijo branco ou mesmo para o molho de pimenta do pastel do japonês. É o trabalho, com certeza, horários a cumprir, deveres a desempenhar, um ônibus para pegar! Mas de perto, veio um som conhecido: o som de carne estatelada no chão. Era uma senhora de meia idade, com cara de que já vivia de hábitos e, quando possível, da felicidade dos netos. Estava de quatro sobre uma calçada traiçoeira, como se de repente resolvesse virar quadrúpede e se cansasse desse bipedismo simiesco. Olhei para os lados. A feira prosseguia no seu ritmo de gritos rápidos e velhinhas japonesas vagarosas, desconfiadas de preços vis. Ninguém reparava no tombo da senhorinha. Aproximei-me. “A senhora está bem?”, perguntei, polido demais. Ela me olhou surpresa, como se eu a tivesse flagrado cometendo um crime silente. ...