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Mostrando postagens de janeiro, 2012

Teodora

Apertei a campainha duas vezes. Arfava. O elevador nunca funcionava e sete lances de escada me separavam da superfície até o apartamento dela. Uma sombra se projetou por sob a velha porta. O olho mágico me encarava. - O que você quer? - Vender biscoitos é que não é, Teodora, vamos, abre logo. Ela apenas virou a maçaneta, a porta estava destrancada. Não me abraçou nem me cumprimentou de forma alguma.  Apenas balançou o penhoar enquanto me dava as costas e sentava numa grande poltrona. Fiquei esperando. - Estou esperando, disse. - Esperando o quê?, ela perguntou, como se me indagasse qual era o sentido da vida. - Você me convidar para sentar. Ela riu alguns segundos, embora eu tenha impressão que foram minutos. - Victor, vá me pegar um uísque. Copo, gelo, uísque. Teodora gostava de pouco gelo e de muito uísque. Ela pegou o copo e com um grande gole quase deu cabo dele. Depois me encarou com impaciência e me indicou com o pé um puff à sua frente. Sentei-me nele. Ela pousou o...

Eu tenho lido você

“Esse é o problema dos escritores. Vocês são cheios de palavras”.                                                                            (Adriana, personagem de Marion Cotillard em “Meia Noite em Paris”) A belíssima Marion Cotillard proclama a epígrafe ao protagonista com palavras candentes e olheiras convidativas. Ao meu lado, no cinema, a garota me cutuca, sorriso no rosto, como se aquele fosse também meu problema. Um problema de palavras e mais palavras. Um garoto cheio de palavras. Não falta quem me ache louco. Em síntese, não é incomum que me perguntem, “como você tem coragem de escrever sobre isso?”, ou, m...

Um lugar vazio ao meu lado

A garota bonita passa pela roleta do ônibus e é óbvio que há muito eu já a notei. Estou usando óculos escuros e finjo – porcamente – não ter reparado nela. Estou sentado no fundo do coletivo e ela ameaça se sentar num banco lá para frente. Ela hesita e olha para trás, onde eu reino absoluto no fundão, procurando algo. Sem delongas, ela desiste de se sentar onde pretendia para me dar a honra de ficar ao meu lado. Num ônibus cheio de lugares vazios isso é um privilégio. Ela é bonita, simples e me deu bola, são três qualidades irrefutáveis. Tenho um amigo que adora meninas que andam de ônibus. Ouso dizer que ele tem certa tara por elas. Eu acho que o compreendo. Estou acostumado a meninas frescas. Elas fizeram, fazem e provavelmente farão parte do meu dia-a-dia. Meninas que provavelmente sentiriam nojo de entrar num circular. São aquelas que antes de saber se o cara tem dois olhos, duas orelhas, um nariz e uma boca (e muito antes de sequer saber se ele é homem mesmo), dão um jeito de des...