Memórias de fungo
É sempre o ranger de grades que cheiram a mofo, ou a escuridão que oprime as narinas, o gosto da água metálica que está no teto e no chão, o calor modorrento de som nauseante. São um milhão de sinestesias e todas invasoras. O cheiro fica e não se vai, o gosto amarga e não adocica, a visão se apaga e não retorna, os ouvidos escutam mais do que querem, tocamos coisas inimagináveis. É impossível se livrar da sensação. É desumano não lembrar do que é dignidade. Eu tenho esta tosse que adquiri visitando meus nobres clientes. Lembro bem de quando ela me assomou. Era um lugar úmido, veja só, e nem um só preso deixava de tossir. Os mais sortudos já expeliam sangue nos seus travesseiros mal-lavados. Não me surpreenderia se toda a prisão virasse uma colônia de fungos, afinal, já não era patente o senso de coletividade desses seres que lá residiam forçadamente? “Lembro bem”, eu disse agora há pouco. A tosse é uma memória, mas me acompanha presentemente, obrigando a me curvar diante de triste si...