Explique o meu coração
Um grão de areia entra no seu olho, irrita sua córnea e sua conjuntiva, a lágrima vem, involuntária, limpando, lubrificando. Suas pálpebras se fecham, facilitam o serviço, por um momento você está no escuro, indefesa, dissociada de um sentido. Está nas trevas. Seus dedos sujos coçam os olhos e os irritam ainda mais. Nós apenas sabemos piorar o desprezo da natureza por tudo que se acha especial. Uma párticula tão simples quanto um grão de areia, essa diminuta unidade que um dia já fez parte de algo maior. Tão pequena, tão letal. Ao abrir os olhos, você já se esqueceu do grão de areia. Olha para o chão e vê que o cimento é cinza e feio. A cidade toda é cinza e feia, e com toda a certeza até as árvores são cinzas e feias. As pessoas são cinzas e feias e, enquanto andam, exalam odores cinzas e feios. Talvez o grão de areia seja cinza e feio, talvez ele tenha deixado o mundo todo cinza e feio. Quando leio que partículas podem ser coisas divinas, começo a ficar preocupado. Antes, era boni...