Começo, meio e fim
Num momento de lucidez, minha mãe solta: “Você deve ter passado por muita coisa, né? Tanta coisa que você deve ter vivido e me poupado de saber, por se preocupar comigo. Tanta coisa pela qual deve ter passado, e segurado com você!”. Dei uma risadinha e respondi: “Pode ser que sim…”. Mas por dentro eu estava imaginando quanto tempo ela havia levado para reconhecer aquilo. Dez anos ou mais, no mínimo. Não sei se aproveitei bem aquele momento. Não me regozijei. Talvez se tivesse aproveitado o instante, não o escreveria como introdução do meu texto, mas tudo na vida precisa de uma introdução. Mentira. Nem tudo. Minha ideia levaria à conclusão de que tudo é um processo. E por processo vamos acabar imaginando que tudo tem um começo, um meio e um fim, e que esse fim leva necessariamente à uma conclusão. Seria declarar que as coisas evoluem. E eu tenho certeza que as coisas não evoluem. Mas é bem verdade que existe um início, em algum lugar, embora raramente possamos identificá-lo. Eu po...